“O romance Inocência é considerado uma
obraprima da literatura regionalista do século XIX. O interior do Brasil, com
seus tipos humanos característicos e suas rígidas normas de comportamento
social e familiar, constituía uma fonte de grande interesse para os escritores
românticos. E é numa região rústica do interior do atual Estado de Mato Grosso do
Sul que transcorre a história da jovem Inocência. Nessa região, há hoje uma pequena
cidade chamada Inocência, em homenagem à heroína do romance de Taunay. Única
filha de Martinho dos Santos Pereira, um mineiro viúvo que vive num sítio
isolado, Inocência se apaixona por Cirino, um prático de farmácia que se fazia
passar por médico e que é levado à casa da jovem para tratar de sua saúde. Apesar
de viver praticamente reclusa no fundo da casa, os breves contatos com Cirino,
por ocasião das consultas médicas, despertam em Inocência a chama da paixão, no
que é correspondida pelo rapaz. Os dois passam a viver um amor que lhes causa
uma grande perturbação íntima, pois ela estava prometida a Manecão, um rude
vaqueiro do lugar, e em hipótese nenhuma o velho Pereira estaria disposto a
desconsiderar o compromisso. Antes ver a filha morta do que ter a “honra”
manchada. Esse é o rígido código moral da sociedade, que impede a realização do
amor entre Cirino e Inocência. Além de Cirino, encontrava-se de passagem na casa
de Pereira um naturalista alemão chamado Meyer, que viajava pelo sertão em
busca de novas espécies de insetos, principalmente borboletas. Vindo de uma
sociedade européia com hábitos diferentes, principalmente com relação à
participação da mulher na vida social, e ignorando os preconceitos que marcavam
a vida familiar sertaneja, Meyer, na sua franqueza ingênua, expressa várias vezes
sua admiração pela beleza de Inocência, despertando a preocupação de Pereira,
que passa a vigiá-lo como se ele fosse um perigoso sedutor. Assim fazendo, no
entanto, dá oportunidade a Cirino de comunicar-se mais facilmente com
Inocência. Com a partida de Meyer, as coisas se complicam para os namorados. A
data do casamento de Inocência com Manecão se aproxima. Ela já recuperou a
saúde e Cirino fica sem pretextos para vê- la. Instruído por Inocência, Cirino
vai à procura do padrinho dela para pedir-lhe que interceda, mas, enquanto está
fora, o namoro é descoberto: Tico, um anão que servia Inocência como um cão
fiel, espreita Cirino e descobre suas intenções, contando tudo a Pereira. Manecão,
enfurecido, sai atrás de Cirino e mata-o numa estrada deserta. No epílogo, o
narrador descreve a festa com que Meyer foi recebido em sua cidade, onde foi
tratado como um herói pelo resultado de suas viagens científicas pela América do
Sul e, sobretudo, pela novidade que trazia: um espécime novo e maravilhoso de
borboleta, batizado por ele de Papilio Innocentia, em homenagem à beleza da
jovem que conhecera em terras brasileiras. Quanto a Inocência, diz o narrador,
“exatamente nesse dia dois anos fazia que seu gentil corpo fora entregue à
terra, no imenso sertão de Santana do Parnaíba, para aí dormir o sono da
eternidade”.
Douglas Tufano
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