sexta-feira, 30 de novembro de 2012

09. Bibliografia




Livro: Roteiro de Leitura: Inocência de Visconde de Taunay (Irene A. Machado) 

08. A crítica do grupo. (Você indicaria a obra para alguém ler? Por quê?)



Inocência é um romance escrito pelo escritor brasileiro Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay, conhecido também como Visconde de Taunay . Descendente de pintores franceses radicados no Brasil desde a época Joanina, o Visconde desenvolveu um grande talento na descrição do sertão, com seus costumes e suas paisagens. Muitos referem sua obra como apenas memorialista, devido ao tempo que viveu no sertão brasileiro durante a Guerra do Paraguai. Entretanto, vale destacar o grande nível de erudição do escritor e a grande capacidade de descrição e recriação.
No romance citado de Taunay observa-se que ele não é apenas um exemplar de sua época. Boa parte de sua composição faz referências a clássicos da literatura, seja o amor a moldes de Tristão e Isolda, ou nas próprias notas e observações feita pelo autor. É evidente que ele não é nenhum gênio e escreveu uma obra totalmente única, assim como fizera Machado pouco tempo depois, mas colocou traços peculiares dentro do regionalismo romântico.
Uma das características que enriqueceram a obra Inocência foi a grande capacidade do autor em demonstrar o cotidiano do sertão. Esse cenário deixava de ser o ambiente de fuga da alma e passava a ser o palco da trama. Principalmente no que se refere a rigidez de valores morais, nota-se uma grande capacidade de recriação do ambiente sertanejo.
Os valores do sertão era conflituosos com o amor e o tornou impossível. Assim, Taunay começa a demonstrar como o ambiente pode interferir no comportamento (determinismo geográfico) e que, mesmo sendo pouco explícito, demonstra a visão geral da época. A partir disso também se criou a imagem dos próprios personagens, sendo os sertanejos possuidores de modelos “a priori” de indelicadeza e estupidez, a exemplo de Sr. Pereira.
Assim, chegamos a conclusão da grande complexidade da obra em um simples comentário. É claro que possamos encontrar vários outros aspectos a serem analisados e que chamariam muito a atenção daqueles que fossem ler. Também é interessante pensar no idílio que circunda toda trama. Inocência é um exemplo muito interessante do romance regionalista romântico e que pode figurar tranquilamente entre as maiores obras de sua época, juntamente com os “regionalismos” de Alencar. Uma obra nobre de um visconde.

07. Síntese do enredo.



No Sertão de Santana do Paranaíba, aproximadamente no ano de 1860, vivia em uma fazenda uma bela jovem de nome Inocência, tinha 18 anos. E, ali, vivia também Martinho dos Santos Pereira, o conhecido “Pereira” o qual Inocência tinha total obediência. Sendo assim, ela fora criada em um regime antigo, longe do mundo. Para se casar com a bela moça, seu pai, escolhe um homem rude, criado no sertão bruto e com uma índole violenta, chamado Manecão.
Na casa de Inocência trabalhava uma escrava, uma mulher negra de nome Maria Conga. Lá também trabalhava um anão chamado Tico, que apesar de mudo era bastante fiel e, além de tudo, era o guarda da bela jovem.
Certo dia, Pereira encontra-se com um jovem rapaz que andava pelo sertão medicando as pessoas. Este havia estudado no colégio Caraça, e, iniciado o curso de Farmácia na cidade de Ouro Preto. Possuía a alcunha de “doutor”, mesmo não sendo formado em medicina. Seu nome era Cirino Ferreira dos Santos, vulgo Dr. Cirino.
Sendo assolada por uma forte febre Inocência é curada pelo Dr. Cirino. E, após isso, os dois se apaixonam. Eram especiais os cuidados do Doutor em relação à jovem moça. Eles se encontravam ás escondidas, e o laranjal era o local marcado dos encontros proibidos, pois pensavam que ali ninguém desconfiaria. Porém, Tico, o anão mudo, estava atento a situação. No entanto, neste tempo, Pereira andava preocupado com o Dr. Meyer, um caçador de borboletas que aparecera na cidade.
O então entomólogo, Dr. Meyer, passou a ser “persona non grata” na cidade. No, entanto, o único objetivo deste era descobrir novos espécimes para os museus da Europa e, por sinal, tratava com muito carinho, respeito e atenção a bela Inocência. Havia também o a ajudante do entomólogo, José Pinho (Juque), que explicava aos demais a função de seu patrão que era de procurar insetos.
Quando descobre a relação de Cirino com sua filha, Pereira a maltrata. Esta então resiste e jura não se casar com Manecão, o sertanejo rude. Porém, o pai de Inocência acha que ela está de “mau olhado”, por causa do Dr. Meyer.
Com isso, o pai de Inocência encontra uma solução: ele ou Manecão teria que matar o intruso alemão. Dr. Meyer, sabendo da ameaça de Pereira, o zomba. Pereira se envergonha. Tico, após testemunhar o amor que existia entre Cirino e Inocência explica á Pereira tudo o que se passava com sua filha.
Manecão passa a seguir os passos de Cirino. Até que um dia abordou-o, tirou uma garrucha da cintura e... Cirino caiu por terra, pedindo água por onde passava e sussurrando aos ventos o nome de sua amada Inocência. Agonizante exigia do mineiro Antônio Cesário que não deixasse Inocência casar-se com Manecão.
Já aproximadamente no ano de 1863, o Dr. Guilherme Tembel Meyer, apresentava aos estudiosos de entomologia ao redor do mundo a sua mais recente descoberta, uma espécie de borboleta, até então desconhecida, que recebeu o nome de “Papilio Innocentia” em homenagem a bela moça que conhecera no Sertão da parte sul oriental do Mato Grosso, de nome Inocência.
A bela e jovem moça, Inocência morre e então seu gentil corpo fora entregue à terra, no intenso sertão de Santana do Parnaíba, onde jazerá para sempre.

06. Crítica literária. (O que a crítica fala sobre a obra? Não se esqueça de citar as fontes.)



“O romance Inocência é considerado uma obraprima da literatura regionalista do século XIX. O interior do Brasil, com seus tipos humanos característicos e suas rígidas normas de comportamento social e familiar, constituía uma fonte de grande interesse para os escritores românticos. E é numa região rústica do interior do atual Estado de Mato Grosso do Sul que transcorre a história da jovem Inocência. Nessa região, há hoje uma pequena cidade chamada Inocência, em homenagem à heroína do romance de Taunay. Única filha de Martinho dos Santos Pereira, um mineiro viúvo que vive num sítio isolado, Inocência se apaixona por Cirino, um prático de farmácia que se fazia passar por médico e que é levado à casa da jovem para tratar de sua saúde. Apesar de viver praticamente reclusa no fundo da casa, os breves contatos com Cirino, por ocasião das consultas médicas, despertam em Inocência a chama da paixão, no que é correspondida pelo rapaz. Os dois passam a viver um amor que lhes causa uma grande perturbação íntima, pois ela estava prometida a Manecão, um rude vaqueiro do lugar, e em hipótese nenhuma o velho Pereira estaria disposto a desconsiderar o compromisso. Antes ver a filha morta do que ter a “honra” manchada. Esse é o rígido código moral da sociedade, que impede a realização do amor entre Cirino e Inocência. Além de Cirino, encontrava-se de passagem na casa de Pereira um naturalista alemão chamado Meyer, que viajava pelo sertão em busca de novas espécies de insetos, principalmente borboletas. Vindo de uma sociedade européia com hábitos diferentes, principalmente com relação à participação da mulher na vida social, e ignorando os preconceitos que marcavam a vida familiar sertaneja, Meyer, na sua franqueza ingênua, expressa várias vezes sua admiração pela beleza de Inocência, despertando a preocupação de Pereira, que passa a vigiá-lo como se ele fosse um perigoso sedutor. Assim fazendo, no entanto, dá oportunidade a Cirino de comunicar-se mais facilmente com Inocência. Com a partida de Meyer, as coisas se complicam para os namorados. A data do casamento de Inocência com Manecão se aproxima. Ela já recuperou a saúde e Cirino fica sem pretextos para vê- la. Instruído por Inocência, Cirino vai à procura do padrinho dela para pedir-lhe que interceda, mas, enquanto está fora, o namoro é descoberto: Tico, um anão que servia Inocência como um cão fiel, espreita Cirino e descobre suas intenções, contando tudo a Pereira. Manecão, enfurecido, sai atrás de Cirino e mata-o numa estrada deserta. No epílogo, o narrador descreve a festa com que Meyer foi recebido em sua cidade, onde foi tratado como um herói pelo resultado de suas viagens científicas pela América do Sul e, sobretudo, pela novidade que trazia: um espécime novo e maravilhoso de borboleta, batizado por ele de Papilio Innocentia, em homenagem à beleza da jovem que conhecera em terras brasileiras. Quanto a Inocência, diz o narrador, “exatamente nesse dia dois anos fazia que seu gentil corpo fora entregue à terra, no imenso sertão de Santana do Parnaíba, para aí dormir o sono da eternidade”.

Douglas Tufano

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

05. Análise literária. (Qual é o estilo de época? Quais as características?)



O livro Inocência, de Visconde de Taunay, é um livro que se encaixa ao período literário designado como Romantismo. Entretanto, sua análise é bem mais complexa do que apenas um livro de ideais românticos. Há no livro constantes intertextualidades e um grande caráter descritivo do sertão brasileiro que, mais tarde, tornou o livro um exemplo da literatura regionalista.
            Descrever uma obra tão complexa requer muita atenção, muito devido a infinidade de detalhes em cada capítulo. Como sendo um exemplo de livro do romantismo, há a presença do embate entre a alma, a paixão, e a emoção frente à razão. Esse conflito se dá pelo governo do acaso na trama. Principalmente nos capítulos iniciais, em não há um modelo racional para os acontecimentos, não apresentando nenhuma sequência lógica. Praticamente todos são governados pelo acaso: o encontro de Pereira e Cirino; o fato de Meyer achar um abrigo e a espécie rara; e, é claro, o amor entre Cirino e Inocência.
Outro elemento que também servem para exemplificar a tensão razão-emoção é a descrição tempo-espaço. Ambos, em muitas partes, representam extensões da alma. O tempo aparece dilatado conforme os sentimentos. Ele não é constante, mas varia conforme os estados da alma. Em momentos de conflito, como ao final do livro – episódio da morte de Cirino – há um tempo marcado pela rapidez – frases curtas. Ao mesmo tempo em que o período de encontro do casal romântico parecia uma eternidade. O espaço por sua vez também varia conforme os sentimentos. Ao mesmo tempo ele pode ser um ambiente de solidão – para o Cirino viajando – como também um ambiente para a paixão.  Esses aspectos reforçam o caráter romântico do texto.
            Uma característica da trama que é constante em textos românticos é o “amor impossível”. O amor é pecado. Ele é idealizado e, mesmo correspondido, os valores da sociedade não o permitem. O amor não é mais pecado pela Igreja, contra a carne, mas um pecado contra os valores da sociedade sertaneja. Esses valores serão mais debatidos a frente. Esse amor impossível e correspondido entre Cirino e Inocência é um dos vários exemplos desse esquema no Romantismo. O amor impossível também leva, muitas vezes, a outro fator determinante em textos românticos: a morte como saída. Essa seria a forma de alcançar eternidade, o espírito romântico. A morte, portanto, assume a forma de romper com as imposições do cotidiano e se transcender.
            O regionalismo, característica dessa obra, é diferente do regionalismo até então comum no país. O sertão deixa de ser apenas o espaço de fuga, a fuga da alma para um lugar sereno. Ele é o palco dos acontecimentos. Além disso, a trama está relacionada à dualidade do espaço – a natureza para fuga e os aspectos regionais do ambiente – e o tão falado idílio. Esse pode ser encontrado tanto na obra em estudo, como na obra de um dos maiores escritores da época, em Werther, de Wolfgang Goethe. Assim, torna essa obra diferente das produções de sua época, principalmente as de Alencar, o qual usava a natureza apenas para a fuga dos personagens, muitos deles elementos da Corte. Já em Inocência, a natureza é o espaço de fuga e também o palco.
            O conflito entre os valores da sociedade sertaneja e o amor, que se tornava impossível é o fator que cria o idílio no romance. O sertão, palco dos eventos, mostra-se muito diferente da Corte carioca. Nesse novo ambiente prevalece uma sociedade centrada em valores como a honra, a partir do qual as propriedades passam a se tornar ‘minifeudos’ e cria-se uma sociedade sertaneja que, ora se aproxima do colonialismo, ora da Idade Média. E isso o torna um romance cheio de intertextualidades. Essas aparecem tanto diretamente – como nas citações iniciais a célebres textos – como indiretamente. Portanto, observa-se que Taunay monta um romance ainda mais complexo em sua estrutura simples de um idílio amoroso.
            O que se apresentou a cima foi uma breve análise do conteúdo literário. O fato de ser uma obra curta, com pouco mais de 100 (cem) páginas, não quer dizer nada sobre o que realmente é. Apesar de seu curto tamanho, apresenta uma configuração e estruturação próxima a de grandes autores como Goethe e Shakespeare.  A intertextualidade é farta, e torna a obra mais complexa que o simples trama amoroso. Há descrições de hábitos e valores de sertão brasileiro do século XIX  de grande importância para construção da identidade nacional. Assim, Inocência é uma obra singular no aspecto regionalismo romântico, e por mais análises que sejam feitas, nenhuma descreverá todas as formas de interpretações dessa obra.

04. Momento histórico.



O período histórico do livro refere-se a metade do século XIX ao sinal do mesmo. Esse momento se caracteriza pelas intensas mudanças. Numa época em que o Brasil vivia uma monarquia, em que os membros da Corte usufruíam de grande regalias, a população esquecida do interior, os sertanejos, viviam em sociedades que mais se assemelhavam a época colonial. Eclodiam diversos conflitos no interior do país, o que chamava a atenção de muitos aventureiros e intelectuais para esse ambiente esquecido, místico e desconhecido. Conflitos imperialistas aconteciam em todo o mundo, e a Inglaterra influenciava o país mais do que nunca, levando até a uma guerra entre a Argentina, Uruguai e Brasil contra a recente potência do Paraguai. A partir desse evento muito desse sertão brasileiro foi descoberto, entretanto, esse não foi o único conflito importante no sertão brasileiro.
Nesse mesmo período, na Europa, estava em efervescência as ciências e a “Belle Époque”. Grandes avanços ocorriam nas ciências naturais, com o avanço das teorias evolucionistas, novas teorias físicas, entre outros. Já a sociedade estava em grande mudança, movidos pelas novas modificações da recente 2ª Revolução Industrial, a qual tornava a burguesia cada vez mais rica e com melhores condições de vida, e as cidade cada vez maiores e com piores distribuições de renda.

03- Tempo e espaço: Justifique com trecho da obra.


TEMPO:

Duas datas são citadas durante a história: 15 de julho de 1860 e 18 de agosto de 1863. Essas datas servem para nos dar uma referência de quando a narrativa se passou.

A história inicia-se lentamente. É narrada sem pressa e os acontecimentos se dão ao acaso.

“- Tenho vontade de amanhã seguir viagem
- Quê, doutor? Protestou Pereira. Partir já?”(página 60).

Mais tarde no enredo, os acontecimentos deixam de acontecer repentinamente, passando a haver uma sequencia do tempo, ou seja, um desencadeamento da ação.

“Passaram-se segundos, minutos e horas. Afinal soltou ele um suspiro de alívio:
- Meio-dia!... cuidei que nunca havia de chegar!... (página 72).

O narrador também faz uso de flashes, ou seja, cortes no tempo, servindo para alternar os episódio da história. Através desse artifício, ele apresentou ao leitor referencias temporais que este não tinha consciência.


ESPAÇO:

O espaço, em Inocência, é o maior feitor e transformador das características e pensamentos dos personagens. O lugar é bem evidente: sertão de Mato Grosso.

Há no livro a caracterização romântica do espaço, como se fosse um lugar único, privilegiado, visto e narrado pela primeira vez por alguém.

“É cair, porém, daí a dias copiosa chuva, e parece que uma varinha de fada andou por aqueles sombrios recantos a traçar às pressas jardins encantados e nunca vistos. Entra tudo num trabalho íntimo de espantosa atividade. Transborda a vida. Não há ponto em que não brote o capim, em que não desabrochem rebentões com o olhar sôfrego de quem espreita azada ocasião para buscar a liberdade, despedaçando as prisões de penosa clausura.” (página 13)

Há também a evidente conciliação de tempo e espaço. O tempo passa, e o espaço se modifica com ele.

“No dia seguinte, quando aos clarões da aurora acorda toda aquela esplêndida natureza, recomeça ele a caminhas, como na véspera, como sempre.” (página 16)