O livro Inocência, de Visconde de Taunay, é um livro que se encaixa ao período
literário designado como Romantismo. Entretanto, sua análise é bem mais
complexa do que apenas um livro de ideais românticos. Há no livro constantes
intertextualidades e um grande caráter descritivo do sertão brasileiro que,
mais tarde, tornou o livro um exemplo da literatura regionalista.
Descrever uma obra tão complexa
requer muita atenção, muito devido a infinidade de detalhes em cada capítulo.
Como sendo um exemplo de livro do romantismo, há a presença do embate entre a
alma, a paixão, e a emoção frente à razão. Esse conflito se dá pelo governo do
acaso na trama. Principalmente nos capítulos iniciais, em não há um modelo racional
para os acontecimentos, não apresentando nenhuma sequência lógica. Praticamente
todos são governados pelo acaso: o encontro de Pereira e Cirino; o fato de
Meyer achar um abrigo e a espécie rara; e, é claro, o amor entre Cirino e
Inocência.
Outro
elemento que também servem para exemplificar a tensão razão-emoção é a
descrição tempo-espaço. Ambos, em muitas partes, representam extensões da alma.
O tempo aparece dilatado conforme os sentimentos. Ele não é constante, mas
varia conforme os estados da alma. Em momentos de conflito, como ao final do
livro – episódio da morte de Cirino – há um tempo marcado pela rapidez – frases
curtas. Ao mesmo tempo em que o período de encontro do casal romântico parecia
uma eternidade. O espaço por sua vez também varia conforme os sentimentos. Ao
mesmo tempo ele pode ser um ambiente de solidão – para o Cirino viajando – como
também um ambiente para a paixão. Esses
aspectos reforçam o caráter romântico do texto.
Uma característica da trama que é
constante em textos românticos é o “amor impossível”. O amor é pecado. Ele é
idealizado e, mesmo correspondido, os valores da sociedade não o permitem. O
amor não é mais pecado pela Igreja, contra a carne, mas um pecado contra os
valores da sociedade sertaneja. Esses valores serão mais debatidos a frente.
Esse amor impossível e correspondido entre Cirino e Inocência é um dos vários
exemplos desse esquema no Romantismo. O amor impossível também leva, muitas
vezes, a outro fator determinante em textos românticos: a morte como saída.
Essa seria a forma de alcançar eternidade, o espírito romântico. A morte,
portanto, assume a forma de romper com as imposições do cotidiano e se
transcender.
O regionalismo, característica dessa
obra, é diferente do regionalismo até então comum no país. O sertão deixa de
ser apenas o espaço de fuga, a fuga da alma para um lugar sereno. Ele é o palco
dos acontecimentos. Além disso, a trama está relacionada à dualidade do espaço
– a natureza para fuga e os aspectos regionais do ambiente – e o tão falado
idílio. Esse pode ser encontrado tanto na obra em estudo, como na obra de um
dos maiores escritores da época, em Werther, de Wolfgang Goethe. Assim, torna
essa obra diferente das produções de sua época, principalmente as de Alencar, o
qual usava a natureza apenas para a fuga dos personagens, muitos deles
elementos da Corte. Já em Inocência, a natureza é o espaço de fuga e também o
palco.
O conflito entre os valores da
sociedade sertaneja e o amor, que se tornava impossível é o fator que cria o
idílio no romance. O sertão, palco dos eventos, mostra-se muito diferente da
Corte carioca. Nesse novo ambiente prevalece uma sociedade centrada em valores
como a honra, a partir do qual as propriedades passam a se tornar ‘minifeudos’
e cria-se uma sociedade sertaneja que, ora se aproxima do colonialismo, ora da
Idade Média. E isso o torna um romance cheio de intertextualidades. Essas
aparecem tanto diretamente – como nas citações iniciais a célebres textos –
como indiretamente. Portanto, observa-se que Taunay monta um romance ainda mais
complexo em sua estrutura simples de um idílio amoroso.
O que se apresentou a cima foi uma
breve análise do conteúdo literário. O fato de ser uma obra curta, com pouco
mais de 100 (cem) páginas, não quer dizer nada sobre o que realmente é. Apesar
de seu curto tamanho, apresenta uma configuração e estruturação próxima a de
grandes autores como Goethe e Shakespeare.
A intertextualidade é farta, e torna a obra mais complexa que o simples
trama amoroso. Há descrições de hábitos e valores de sertão brasileiro do
século XIX de grande importância para
construção da identidade nacional. Assim, Inocência é uma obra singular no
aspecto regionalismo romântico, e por mais análises que sejam feitas, nenhuma
descreverá todas as formas de interpretações dessa obra.
Muito bom ,é mais ou menos o que nosso grupo encontrou e entendeu com a obra!
ResponderExcluirArthur, Bruno e Caian, o trabalho de vcs está muito organizado e os tópicos, já postados, estão bem completos. Parabéns pela produção, escrita e estética do blog. Bom trabalho!
ResponderExcluirObrigada por está análise!
ResponderExcluirEstou com muita dúvida a obra de Inocência pode se encaixa como característica do neorrealismo ?
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